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Veredas - O Coração do Cerrado

Veredas: o coração do Cerrado!

Foto: Suzana Neves

Vereda típica: à esquerda, mata de galeria em estádio avançado de evolução, ao centro o estrato graminoso predominante e, à direita, vegetação de cerrado.


Lidiamar Albuquerque, Embrapa Cerrados
Suzana Neves Moreira, Universidade Estadual de Mato Grosso

As veredas são áreas brejosas ou encharcadas que abrigam nascentes e cabeceiras de cursos d’água. Caracterizam-se por solos hidromórficos (naturalmente úmidos) e pela presença marcante, mas não obrigatória, do buriti (Mauritia flexuosa), além de outras espécies típicas. Reconhecidas oficialmente pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente, desempenham papel essencial na manutenção dos recursos hídricos, na conservação da biodiversidade e na sustentabilidade das atividades produtivas no Cerrado.

Mas, compreender as veredas apenas por sua definição técnica não revela toda a sua importância. Para enxergar sua verdadeira dimensão, utilizamos como analogia o funcionamento do coração para facilitar a compreensão sobre sua dinâmica. As veredas nascem aflorando e pulsando por entre a vegetação herbácea das baixadas. Elas se juntam aos olhos d’água e começam a correr, aumentando a água na região brejosa e, assim, promovendo a formação de caponetes (pequeno capão) com buritis e águas límpidas — um oásis para a fauna.

Ao encontrar vertedouros naturais, essa água forma pequenos riachos que, ao se unirem a outras veredas, aumentam de volume e dão origem aos ribeirões. Ao longo do percurso, essas águas se enriquecem com nutrientes provenientes das matas de galeria e ciliares, contribuindo para a sustentabilidade das propriedades rurais e para a manutenção da flora e da fauna. Esse processo gera diversos serviços ecossistêmicos — benefícios que as pessoas obtêm da natureza, direta ou indiretamente.

As veredas funcionam como “capilares” e “veias” (riachos) que se unem e se expandem (ribeirões), formando grandes “artérias” (rios). Esses rios ganham força ao receber as águas que descem do Cerrado, contribuindo para três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata, que levam vida e nutrientes para o “corpo” do país.

Observa-se, então, que essas águas que nascem timidamente nas veredas adquirem força e são bombeadas como verdadeiras “artérias” que alimentam a foz, ricas em biodiversidade, desaguando no mar. A qualidade dessas águas e dos serviços ambientais associados depende do manejo recebido nas bacias hidrográficas, seja pelo controle dos resíduos das cidades, seja pelas práticas adotadas pelos agricultores em suas propriedades.

Os serviços ambientais que podem ser fornecidos aos produtores são, por exemplo, polinização e dispersão de sementes, controle de pragas e doenças, diversidade genética para uso agrícola, redução da erosão, e, fundamentalmente, conservação dos ciclos da água, dos solos, dos nutrientes e aumento do estoque de carbono. Esses serviços são essenciais para a sustentabilidade da propriedade, assim como os nutrientes transportados pelo sangue são vitais para a saúde humana.

As veredas apresentam diferentes fisionomias que mudam de acordo com a idade e o nível de interferência antrópica. Elas podem apresentar quatro estádios sucessionais. No 1°- predomínio de gramíneas, 2° – estádio graminoso predominante, mas surgem os primeiros arbustos e samambaias, 3°- surgem as trepadeiras e algumas arbóreas começam a se estabelecer ao longo do canal de drenagem, e no 4° – com o canal mais definido e profundo, desenvolve-se a mata de galeria (Figura 1 A-D).

Nas veredas, a água organiza a paisagem. A vegetação distribui-se em zonas que variam das margens mais secas ao solo permanentemente encharcado. Cada espécie ocupa o ambiente mais favorável ao seu desenvolvimento, embora existam espécies generalistas capazes de prosperar em diferentes níveis de umidade.

As veredas são verdadeiros oásis. Fornecem água limpa, alimento, abrigo e locais de reprodução para a fauna terrestre e aquática. São fundamentais para a manutenção dos recursos hídricos e funcionam como esponjas e filtros naturais, removendo nutrientes e sedimentos, fornecendo água de melhor qualidade aos ambientes adjacentes e contribuindo para a recarga dos aquíferos.

Assim como os rins e o fígado filtram o sangue, as veredas filtram a água. Essas características tornam as veredas ambientes complexos e ricos em espécies, cujas interações ecológicas são imprescindíveis para a conservação da biodiversidade e para a manutenção dos serviços ambientais prestados ao agricultor.

Para garantir todos esses benefícios, é fundamental evitar que as “veias e artérias” das veredas sejam comprometidas. O assoreamento atua como o colesterol que obstrui as artérias, impedindo o fluxo de água e nutrientes. A retirada ou queima da vegetação, o barramento e o pisoteio do gado estreitam o fluxo natural. A drenagem equivale a uma hemorragia, uma perda rápida de um recurso que dificilmente se recupera.

Tais ações podem ocasionar processos erosivos e compactação do solo, reduzindo a infiltração de água que abastece os reservatórios subterrâneos. Portanto, manter as veredas saudáveis (independentemente do tamanho) e cuidar das áreas adjacentes, com boas práticas conservacionistas, garante água durante todo o ano, assim como a sustentabilidade e à saúde financeira da propriedade. Quanto maior a interferência nas veredas, menor será a quantidade, a qualidade e a recarga das águas subterrâneas.

As veredas são o coração do Cerrado: elas armazenam e distribuem suas águas para todas as principais bacias hidrográficas e alimentam o desenvolvimento sustentável do país. Sem elas, os prejuízos para os produtores e para a sociedade seriam incalculáveis. Cuidar dessas áreas é como cuidar da própria saúde. Assim como preservar o coração garante a vida, preservar as veredas assegura a produtividade e o futuro da terra. Afinal, proteger a vereda é fortalecer a capacidade de tomar decisões sustentáveis na propriedade.